Acordei do outro lado do mundo
E me faltou do lado a outra
metade
Faz um mês. Acordei sentindo gelo nos pés e frio na alma. Dei-me conta que a largura e a profundidade de um mar me separam de casa. E mesmo em terra estrangeira, eu ainda sou pego me sentindo em casa, em algum lugar que arranca de mim uma única verdade possível: eu sei, e só isso, sei que não é aqui. E a gente se sente meio que perdido quando olha pra rua deserta da madrugada e descobre que acordou do outro lado do mundo e sente do lado, a falta da outra metade. Me arrancaram o teto da cabeça! Nada parece caber em lugar algum. E como se não soubesse, descobri que meu coração é menor que uma moeda. Uma coisa pequenina. Nem cabe saudade. Nem cabe uma lágrima. Eu me esqueci de chorar quando estava triste e me esqueci de rir quando era ocasião. Choro a raiva, mas logo passa e é tudo calma novamente.
A gente tem que acordar, escovar os dentes, ir pra aula, praticar alemão, rir dos outros na rua, e se quiser chorar, deixar pra mais tarde, quando todo mundo tiver ido embora e não se aguentar mais. O choro mora na casa vazia. Eu espero tudo ir embora. Eu choro, mas choro com método. Primeiro deixo os pés descalços, depois sento na cama, e as luzes estão apagadas. Deixo o silêncio chegar com os ruídos ordinários da cidade; os pés já então frios colados no chão. Penso em minha Mãe. Penso em meu Pai e meus irmãos. A primeira lágrima é deles. Deito-me na cama, deixo-me cansaço, resisto ao colchão. Hoje lá fora é frio. Meus amigos? Cadê? Aí eu penso em Deus e não posso mais conter, tudo passa pelo buraco ínfimo da alma e acaba pingando no lençol. Chove também lá fora da janela como aqui dentro. Ah que bom que tem isso meu Deus, Que bom que tem saudade. Que bom que tem solidão, e a alma da gente é tão estreita quanto embaraçada. Que bom que tem. Louvado sejas, louvado sejas.
A gente tem que acordar, escovar os dentes, ir pra aula, praticar alemão, rir dos outros na rua, e se quiser chorar, deixar pra mais tarde, quando todo mundo tiver ido embora e não se aguentar mais. O choro mora na casa vazia. Eu espero tudo ir embora. Eu choro, mas choro com método. Primeiro deixo os pés descalços, depois sento na cama, e as luzes estão apagadas. Deixo o silêncio chegar com os ruídos ordinários da cidade; os pés já então frios colados no chão. Penso em minha Mãe. Penso em meu Pai e meus irmãos. A primeira lágrima é deles. Deito-me na cama, deixo-me cansaço, resisto ao colchão. Hoje lá fora é frio. Meus amigos? Cadê? Aí eu penso em Deus e não posso mais conter, tudo passa pelo buraco ínfimo da alma e acaba pingando no lençol. Chove também lá fora da janela como aqui dentro. Ah que bom que tem isso meu Deus, Que bom que tem saudade. Que bom que tem solidão, e a alma da gente é tão estreita quanto embaraçada. Que bom que tem. Louvado sejas, louvado sejas.
