Rumos



Depois de tanto tempo, agora volto a escrever algumas palavras a vocês. Aqui na Alemanha ainda tudo continua devidamente alemão. E eu continuo devidamente brasileiro, essa nacionalidade inominada. Buscando medir o sentimento de falta e o afã da descoberta. Um dia triste, um dia alegre. Talvez como  estaria em qualquer outro lugar, mas a tristeza em cada canto tenho em cores diferentes, é assim, também, com os momentos felizes. A gente aprende a ser triste de outras maneiras. Aprende a ser feliz de outro jeito.


Um bom passatempo tem sido fotografar. De algum modo isso ajuda a olhar pro mundo, olhar com os olhos óbvios,  que óbvio mesmo é que tudo que mostra esconde. Reparar nas coisas. Como soletrar, bem devagar, deixando soar bem cada o fonema  " CA-TA-RA-TA" Posso descobrir, redescobrir o mesmo, outra vez, novamente. Assim percebo melhor a cidade, as pessoas, a vida delas imprimida nas ruas e nas fachadas, ou a falta da vida delas por aí, também. E a cidade fala comigo, mesmo que eu não me sinta muito a vontade com as pessoas, e me aproximo desse outro. Uma coisa boa de estar sozinho é o sentimento que acaba por dar um empurrãozinho pra ajudar a gente a se livrar dessa solidão. Se aproximar, conhecer, deixar o medo de procurar o outro. Conversando com gente que eu nunca conversaria eu me torno de certa forma até mais humilde. E a gente vê cada pessoa na rua, na festa, na faculdade! Que mundo atravesado. É rindo dos outros que secretamente rio de mim mesmo, como me deixo ser ridículos só pra ser amados, pra ser aceitos, pra ser um pouco mais inteiro.
 

Não sei porque digo isso, mas vá lá, deixo de ser tímido, deixo de ser menino, deixo de ser esquisito, um dia eu deixo. Não me levo a sério, é o tipo de coisa que não cola. Como a coisa que não consegue fugir de sua definição, um triângulo que não se liberta de seus três lados, sejá lá o que queira, faça, sinta ou acredite, não posso escapar dessa coisa que afinal sou eu. Dessa coisa que me ordena, apesar de toda esquizofrenia, que consegue me reunir  numa palavrinha tão pequena e mesquinha: eu. Duas letras, que juntas, são impiedosas, mas lindamente imprecisas ao mesmo tempo que inescapáveis. Alguma coisa me faz um. Uma palavra que não aceita o plural. Corpo, alma e espírito: eu invento um João, os joães me inventam, um para cada lugar, para cada paisagem, para cada momento.  Mas todos partilham do mistério da trindade. Aprisionados uns aos outros, como a alma aprisionada no espírito, o espírito na alma, a alma no corpo. Coisas que só existem separadamente se forem unas. 

Fecho os olhos, não vejo nada e é como se visse a Deus, se Deus fosse coisa de se ver com os olhos. Não que eu seja tão sozinho. Sinto, ás vezes, isso de querer me procurar, e com grande alegria descubro novamente a América, o que sempre soube e sempre esteve aí. Eu também não quero ser só, eu também não quero morrer, eu tenho mais medo que coragem. Vou gastando meu corpo, como o giz se gasta num quadro negro marco o espaço me deixando aos poucos, desenhando meus limites. Um dia vou ser velho, seco de tanto derramar lágrima, vou perder a moldura do sorriso, ainda mais pálido que agora. Se puder olhar dentro dos olhos  de um de meus filhos, eu sei que vou ficar apavorado e engolir a seco. Desde de já mastigo as palavras que não saberei dizer. Feito o menino cujos olhos se afogaram na fundura do céu. Vou me afogar em dor nun sorriso mais largo que o horizonte, mas com tamanha felicidade, diante daqueles olhos, e vai parecer que Deus está tão perto, tão perto, tão perto. Não suportarei. Vou gritar com meu filho e depois pedir perdão dizendo que o amo. E por fim aquele olhar me deixará cego e aquele sorriso mudo e o meu próprio grito surdo. Mas mesmo medroso não serei mais sozinho. Seremos dois medrosos.