Não suporto nada mais faminto que eu






Solidão,
O silêncio da estrelas
A Ilusão,
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos,
Como um Deus
e amanheço mortal
[LENINE]

Fome que não morre. Tenho fome. A comida está à mesa. E não importa o quanto eu coma, tenho fome. A janela aberta tem fome. Meu quarto sujo por limpar tem fome. As roupas sujas tem fome. A foto na parede tem fome. A comida na prateleira tem fome. Minha came se alimenta de mim, tem fome.  Fome não é como sujeira que sai com o banho. Fome não sai dos dentes, mesmo se escovar bem. Não suporto nada mais faminto que eu. A fome é para a comida ou a comida é para fome? Cada palavra pesa, passarinhando. Nada tem mais fome que o céu. O céu é morto de fome, nada maior, nada mais abissal e magnético.  O céu comeu meus olhos. Eu estou cego. Só não me dei conta. Ainda me atino. Que a cegueira também é fome. Fome é falta. Eu não tenho razão, eu tenho fome.