Ontem quisesse maldizer o mundo e ainda desejar não ter nascido. Ontem fosse tão próximo de agora, e não seria hoje, quase amanhã. Quando for triste, saberei o ser. Com lágrima e angústia de alma. Ambas que durante a noite me procurariam, e não se poderá dormir senão cedendo. Mas hoje, neste infinito e ínfimo instante de agora, o céu é cinza, e apesar do dia pleno, não há sol lá fora; se me perguntarem, diria que não há porquê. Mas se estivessem dispostos a ouvir, ouviriam que não me aguento de felicidade. Como hoje fosse a primeira primavera após os anos de inverno. Como fosse a primavera o momento oportuno do contentamento.

Eu que não quero desperdiçar sequer uma migalha deste abraço anônimo, procurando explicá-lo. Coisa assim, tão delicada, vê-se logo que é graça, vem de Deus. Quase não precisa agradecer. Deus vê, alegra-se com a alegria da gente. E só. Felicidadezinha, pronuncio baixo, para que não ouça ninguém. Tem gente que não pode ser feliz. Não desse jeito. Felicidade feito gripe. Às vezes, vem, assim como se vai. Pois bem, pode ser que seja. Peguei felicidade. Ou quem sabe, tenha ela, a própria, me pegado. Fui escolhido para dançar, sem saber que sabia dar os paços.

Acordei tarde e cansado. Tinha o peso de uma noite sem sonhos. Quem esperava por mim no espelho, inesperadamente, era um homem pacificado. Que terá o espelho? Escovo os dentes como se não fosse preciso, mas escolhesse fazer. Louça ainda por lavar. Ralo entupido. Falta pagar o aluguel. Mas a rotina encontra hoje um contentamento insuspeitado. Nada a fazer. Senão frases curtas. Em português. Ou alemão. Eu falaria espanhol nesse dia. Eu quero, hoje, não tem complemento.

Acendi uma vela. Uma pequena chama. Durará duas horas. Ou menos. Plantei-a no exato centro do quarto. Tenho o sol no chão, a três pés de distância. Eu imaginando, nem é domingo! Também descortinei a janela. Sentei-me frente a ela e assisto à rua. Ninguém bota os pés para fora. Quase ninguém. Parece que acabo de ver um primo que nunca vira antes na vida. Depois, um irmão desconhecido. Ainda não almocei, e já tenho fome de família e amigos.

A janela não mente, gigantesca como é: eis que hoje neva. A neve é uma chuva que cai especialmente preguiçosa, assim, devagarinho, quando um homem imerecidamente feliz assiste pela janela do quarto que semelhante a ontem, nada acontece hoje. E o sino da igreja toca, anunciando que hoje são hoje horas e agora é hora nenhuma, nem segunda, nem feira alguma. Hoje não importa.