SE EU QUISER FALAR COM DEUS, tenho que ter as mãos vazias. Num dia
como ontem, acho que foi ontem, fez 3 anos que perdi meu Pai. Ele morreu de
tristeza, mas a desculpa foi problema do coração. Não consigo esquecer que, no
enterro, o céu estava pleno e o dia quente como nunca antes, o entardecer
mas vermelho.
Tivemos um velório de poucas pessoas.
Família pequena, homem de poucos amigos. Eu fui o único filho. Apareceu um
vizinho antigo me dizendo que era uma pena, tinha ouvido falar, e não pode
acreditar até ver com os próprios olhos Seu José, ainda sério e de branco no
caixão. Minha mãe, servia café e chá; tinha um buraco no rosto, tinha esquecido
os olhos em algum lugar. Tempo depois, nós choramos juntos relembrando que
todos os dias, ao final da tarde, papai chegava com doces que eu só comia no
dia seguinte, temendo que não ganhasse mais nada no próximo. Precavido desde
pequeno. Relembrando que pegava as roupas velhas do tempo de exército do velho
de cara amarrada. Minha tia dizia, ele não faz por mal, ser severo demais,
tinha de ver seu pai quando menino, queria ser passarinho.
Todos já sabíamos. Estava hospitalizado fazia três dias, estado grave. Eu o via morrendo aos poucos. Não dizíamos
nada, nem eu, nem ele, percebi que os olhos iam amolecendo; no penúltimo dia, olhou -me fundo como tentasse um impronunciável adeus, pedindo perdão. Avisamos os parentes, não tardaria.
Na última noite, não dormi no
hospital, fui para casa. Deitei o corpo na cama e nunca fui tão pesado, o chão não
encontrava um paço sequer. Como de costume, tentando pegar no sono, com os
olhos fixos na parede, repassei o dia inteiro na cabeça, fazendo minha
observações. Sobrou aquela hora silenciosa, apenas povoada pelos ruídos da
noite e o som de uma coisa que quebra. Que enverga e racha; estilhaça e expõe
as fibras pra fora. Quem quebra sou eu, sem lágrimas e sem sono. De repente, eu
não tinha nada. Ouvi som distante que vinha da sala, eu brincava na cozinha. O
timbre riscado do vinil, chão frio e sigo as manchas de luz até o cômodo onde
meu pai está sentado na cadeira de fio, um homem enorme de olhos fechados e a
cabeça reclinada, sonhando. Pensei que procurasse alguma coisa no teto, olhei
também e fechei os olhos, nós dois imóveis, a música ressoando. O disco toca,
uma mulher que canta e grita com toda a alma que tenho de ter a alma e o corpo
nus.
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