Praça Cívica | Goiânia 81


Goiânia conhece meu corpo. Percorreu meus melhores sentimentos e desafetos. Sabe bem de vontades e segredos. Guarda no seu desenho de cidade tímida lembranças que quero esconder até mesmo de mim. Na arquitetura incógnita, o que penso saber da vida e me atrevo reter com esperança.

Houve um dia em que a tristeza cotidiana deu de mãos ao desconsolo de uma tarde especialmente ruim. Frente ao coreto, esperando atravessar a rua larga, ali mesmo, dei de chorar sem medo, nem vergonha. As calçadas arrebentadas da praça, o aspecto empoeirado, o abandono do centro. Nada para se sentar, não há lugar de descanso. Aquela praça me entende, no seu vazio e na poeira grossa que encarde de sol  até mesmo os prédios. Parei diante de uma das árvores velhas, filamentosas, como se deformadas pelo calor. Pendia no tronco, suspenso por um prego, um espelho desses baratos, moldura plástica alaranjada. Vi um homem perdido, um menino que há pouco sabe de si. Vi dois olhos, como duas cisternas e o eco apagado engolido pela escuridão.

Não suportei minha face, mas fixei bem os olhos, como a dilatar bem a vista, olhando para o sem-fundo do reflexo. Eu sei, estou ali, em algum lugar. A praça cívica parecia muda, sem passarinhos ou carros. Naquele dia, plantei no vão das escadas desfalcadas, nas quinas duras facilmente quebradas, no jorro de terra que saía do concreto aberto. Plantei ali um segredo mais que triste, porque era uma terrível alegria, mas que me moeu a alma. Plantei meu desconsolo que ainda hoje, nasce á beirada do palácio em tons de verde. Ele serve de encosto aos mendigos, como a grama ressequida. Ele ainda atravessa e arrebenta o concreto do que outrora foi a glória de um sonho de cidade com fontes e bulevares. Ele, ainda, dobra meu pescoço qualquer ocasião que pise ali.

Quando passo pela praça, mesmo que esteja escrito nas paredes, nas placas, no asfalto. Escrito com o desbotado característico que ali é um lugar de ninguém, desminto aí, porque vendo além do que está posto, vejo que aquela praça um dia, como a mais ninguém, já me pertenceu.

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