Aqui não é a cidade verde. Do que se vê nada se supõe que tal cidade tenha nascido de qualquer sonho, ou pelo menos de um sonho tranquilo. Ouve-se dizer que planejada, mas talvez do sentimento desses que planejam vingança. Entre as rachaduras do concreto estilhaçado e do suor que acompanha o calor incansável dos dias nessa cidade. Espero sob a marquise e observo a ventania, espero mesmo que aquele vento todo acabe em mim, varrendo o lixo do chão junto dos meus pés. Um alívio para o rosto molhado, a roupa úmida e o friozinho de uma gota que se desprende das costas ou mesmo que despenca das pernas.
Sou pele e pêlos e sal, para o suor e o cheiro do ar morno das tardes, um cheiro de tempo seco, poeira e transpiração. Meu cheiro que quase não suporto. Para onde se vai partindo-se daqui? Rodeado da feiúra das construções, do modismos fora de época dos edifícios neoclássicos, as fachadas empilhadas, desamparadas da novidade, desbotadas as lonas nos comércios tristes, um desenho inútil de cidade. Moldura tosca de minha estadia nesse lugarzinho, de onde me enterro há mais de 10 anos. Onde se vai?
Eu não vou, como uma cidade sem bordas, que por isso quase não existe e também por isso está em todo lugar. Se me pego encantado com a limpeza do céu, como de um rio profundo de azul e o rolar preguiçoso das nuvens é que me esqueço da sujeira dessa terra em que a cidade se encardiu, e se encarde e vive às turras com a poeira que insiste em nos soterrar, nos sepultar, entrando pelos pulmões, infiltrando-se por debaixo das unhas. Temo o pó que me inflama os olhos. Temo a secura do tempo que me arranha e sangra as narinas. Temo a aflição que desponta quando renasce aquele sentimento que daqui não se vai a lugar nenhum, sufocado pelas profundezas de um interior que de tão dentro, mas tão dentro, morre de si.
No asfalto dessas ruas que inflamam sobre nossos corpos vapor tão insuportável nasceu do menino que fui o homem que hoje atende pelo meu nome. Mas meu nome não importa, o importante é que da dor e a raiva que levo e mesmo aquilo de um doce sentimento, disso e de tudo o mais participo não só eu mas todos os habitante da cidade. A capital sobre o solo dos goyazes é onde padeço de amar e não saber amar.
